Domingo

Fia Mínia...



Pureza é muntio munita...
Os cabelo tan crarinho,
as pele tudo branquinha, -
mia fia do zóio azú!...

Io sô mar negro qui a noite,
e num consigo atiná
c'us pruquê que Nosso Sinhô
mandô essa frô di fia,
tan colorida i lindinha...

Quano ia nas dominguêra
Pureza num assussegava...
Vortava c'as perna doeno, -
dançava c'us moço tudo...
I quem num qué vê de perto
os cé azú de Pureza?!

Mar na semana passada,
Joana, mia muié,
qui num sei cum'é qui arrumô
essa fia c'us zóio de cé,
contô qui os bucho da pobre
desembestô de crescê.

I adispois do susto,
i de muntio cunversê,
a minina, coitadinha,
falô que num rastapé,
faz pra mais de treis mês,
cunheceu um tar dotô
danado d'infatiotado
qui convidô a Pureza
pra cunhecê ôtro cé...

I num é qui a pobrezinha, -
inda uma criancinha! -,
dibaxo da lua cheia,
muntio chêro nos cangote,
foi logo abrindo as perninha
e cumeçano a gemê
pru dotô adevogado
qui era cheio das palavrinha
munita, doce... um mé?!...

Iagora que a nossa minina
vai tê minino tumém,
i o dotô se escafedeu,
nunca mais apariceu,
os zóio da linda Pureza,
se virô em cé pesado
donde escorre muntia água...
Dá pra inchê as cacimba,
lavá chão, fazê cumida,
i si num era sargada,
nóis pudia inté bebê...

Tadinha da minha santinha...
c'us cé tudo vermeiado,
chuveno nu seu moiado...
Nois tanto falô, insinô,
iela intendeu tudo errado...

Agora, tem jeito não,
acabô as dominguêra...
Pureza despurezô
i os qui dançava cum iela
já nem óia prus seu zóio,
ni tumém pras barriga
qui num pára de crescê...
Di sigunda a sigunda-fêra,
na porta da casa ô na fêra,
todo mundo qué desaguá
nas água da mínia Pureza...

S'io pego o disinfeliz
qui disgraçô mia minina
adiscasco ele todinho
no fio do meu facão...
Que ninguém mais acredite
que vai insiná a gemê
as minha ôtra fia, não!...
Vai pra dibaxo da terra,
sem carqué dos documento,
c'us zóio bem paradinho,
as pele verdeadinha,
as perna bem abertinha,
aprendê a cumê as raiz
qu'inda brota desse chão.

Io só sei falá errado,
sô inté muntio calado,
mar cunheço muntio bem
as língua do meu facão...

S'io pego o cabra safado
io sangro o disinfeliz
sem tê que falá bonito,
sem dizê uma palavra...
Insino praquele bestado,
que num deve di tê famía,
que quem bole c'as mia fia
acá num se cria, não, -
pode de sê quem fô,
inté dotô adevogado,
mando tudo s'intendê,
durim i bem fatiado,
c'aquel que num falo o nome...

ju rigoni (1988)


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Sexta-feira

Clareira...




O calor está mais intenso...
Os ventos, mais poderosos...
E o nível dos rios -
antes fartos, caudalosos, -
nunca mais foi o mesmo...

Tanto desmatamento
agrava a estiagem,
maltrata a alma do chão...

Triste, impotente,... o índio, -
o ascendente ignorado,
esse homem incompreendido,
que vê na barragem de rios
o mais cruel inimigo...

O mais rejeitado dos irmãos
estranha a nova música, -
não dança sua própria dança,
nada podem suas lanças...

Mais um rio
vai deixar de correr
em seu leito,
e o coração do índio,
que, há muito, não bate tranquilo
recostado ao peito da mãe-amiga,
nada - nada! - pode fazer
além de resignar-se,
ou parar de bater...

Mas esse irmão iletrado, -
quase nu, corpo pintado,
desde sempre dono deste chão;
o irmão obrigado
a vestir sua cultura
com as calças e as sandálias
do que chamam civilização,
ainda sabe, de cor, a lição...
Deixa à natureza
a beleza da sua função, -
suas florestas, seus rios,
seus bichos, - sua sedução...

Vida longa
aos que não sabem dizer
até quando sobreviverão,
posto que estão sob o jugo
de um futuro em branco;
vida longa aos irmãos
que beiram a extinção...

É um contrasenso
sugar da natureza
muito mais que energia...
Destruir no ninho
a melhor poesia...

ju rigoni

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Segunda-feira

Disintortanu...




Sêo dotô,
mia muié intortô as inspinha...
Tá sofreno, a pobrezinha,
anssim toda curvadinha...
I, cum iela, inheu i us menino...
Inheu sô hôme, seu dotô,
num sô de mexê panela!
As cumida é coisa dela;
inheu só faço é cumê...
Ié ela qui vai buscá água;
ié ela qui óia os menino;
ié ela qui arruma uns trocado
lá na frente di trabaio,
ié é ela qui deita cumigo!...

Disintorta, dotô,
as inspinha da minha Maria;
nóis só conta cum o sinhô!
Levei ela no beato,
na Morena benzedêra,
fiz promessa prus santo,
i tudo quinhé simpatia...

Já enfiei pela guela
dessa pobre coitada
as erva quiela prantô
no redó di nossa casa...
Mar tumém num funcionô...
Aí, dibaxo di muntio grito,
istiquei ela todinha,
prá mó di amarrá nas costa
um pau qui era muntio retinho...
Se ficava anssim uns dia
quem sabe desintortava?!...
Mar num deu certo, não...
A muié deu di berrá!
Berrô, berrô, berrô,
ieu desfiz o tar feito
i deitei ela na rede
prá mó di acarmá as dô...

E a desinfiliz piorô!...

Num alevantava por nada!
Vevia triste i arriada, -
num bebia, num comia...
Só gemia!

Essa tar de inspinha,
quio dotô diz qui é coluna,
num tá só ispetano as costa...
tá atingino os cébo,
tá dano nus nervo dela,
tá dexano ela diodinha...
Disintorta, dotô,
a minha Maria;
ela já num é novinha,
i tumém num é bonita,
mar inda tem serventia...

Dotô, por jesus cristinho,
nóis só conta cum o sinhô
pra disintortá nossas vida...

ju rigoni (1989)


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Conversa Mole


Assim, num dá!...
A coisa tá preta, -
a mulé, doente
e embuchada de novo,
não qué nada comigo...
A filial tá de bico,
qué dinheiro pra sapato,
perfume, vistido...
Pois é, tô no atraso...
Se devo, num nego,
e nem pago o mico
de arrumá outro rolo, -
a grana tá curta
e não dá pra mijá
fora do penico.

Eu and´é cansado
de pegá no pesado...

Eu sô o que sobra
do cantêro de obra
É sério!
Eu só faço média
cum pão sem mantêga, -
minha vida é o trabaio,
os menino... e as nega!

Meu recreio
é o fim de semana:
futebol no campinho
e ajudar o vizinho,
a assentá tijolo
no seu puxadinho...

Fodido... fodido e meio
No botequim
do sêo joaquim
não sento mais pra beber,
só pra papeá...
Conversa fiada
não me custa nada!

Pior que ficá
sem dinheiro, cerveja,
mulé e Maraca,
é ralá até depois da hora
e, ao voltá do trampo,
encontrá a nega enjoada,
toda enciumada, -
a cara emburrada,
prometendo porrada
se me pega com a outra...

Eu and´é cansado
de pegá no pesado...

Eu sô o que sobra
do cantêro de obra...
É sério!
Eu só faço média
cum pão sem mantêga, -
minha vida é o trabaio,
os menino...
e as nega!

Bolso furado,
não me dá troco;
não passa reboco
nas minhas falta...
Tô no prejú,
fiquei na mão, -
e tudo o que sobra
é reclamação...

(Vem cá, meu nego,
cola no meu umbigo
e vê se não enrola...
Fala aqui no meu ouvido
o que você pensa de mim,
Mas não seja o meu juiz,
que o que eu quero é sê feliz.
Guarda pra tua mulé
essa coisa de deveres...
Diga só o que eu quero ouvir...
E não venha me dizê
que não tem dinheiro pro agrado...
Sem grana, não, mermão!
Sai pra lá!
Vai descolá outra cama,
que saco vazio de grana
num vale qualquer ôtro saco!...)

Pois é! Eu and´é cansado...

Eu sô o que sobra
do cantêro de obra...
É sério!
Eu só faço média
cum pão sem mantêga, -
minha vida é o trabaio,
os menino...
e as nega!

ju rigoni (1998)


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Quinta-feira

Transe




Nada é mais bonito
que este céu estrelado,
esta enorme, inédita lua,
e os cactos
a recortar a paisagem,
quase desértica...
Ao longe,
uma viola que chora alegrias,
e vozes de crianças
a premiar o silêncio...
Vez em quando
latidos, uivos,
ou o grito agudo
de algum animal noturno
a reinar, livre,
neste mundo
quase desconhecido...
Lindo!...

Não fora o espetáculo
da natureza, -
este vestir os olhos
com tanta beleza -,
e eu só me lembraria
da desdita
que, infelizmente,
ainda o habita...

ju rigoni (Anos 80)

Foto obtida aqui.

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Sábado

No Susto...




... num cabe dentro du zóio
qui Nosso Sinhô mi deu...
É coisa di assustá!
Dá pra metê pur lá,
dentro do tar de mar,
todo açude qu'io cunheço,
todos rio qu'ieu vi
pur todo o caminho que fiz
pra chegá inté ali.

Can'ieu vortá pra casa,
i contá tud'iss'aí,
ninguém vai'creditá n'eu...
vão pensá: Maluqueceu!

Falano bem a verdade,
ni eu tô creditano,...
ind'acho qui tô sonhano!...

As coisa nesse mundão
tão mesmo toda errada...
Iera tanta rente rica,
fromosa e alimentada,
andano pel's carçada...
Rente correnu tumém, -
eles córri todo dia,
só num sei atrás di quê?...
só num vi atrás di quem...
Tem uns carro muim munito,
uns armazem infeitado,
cum nome de supermercado,
- tan grandi feito o tar mar -
onde se vende di tudo!...
Ah, s'ieu tinha um trocado!...

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Derde cano lá cheguei
qui num parô di chuvê...
Tô moiado inté a arma!...
Ô meu santinho amado,
cano ocê mandá água
presse povo infatiotado,
manda tumém pru ôtro lado!...

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Transantônti, miô padrinho
me levô pr'andá num trem
isquisito como só...
Trem danad'i bonito!...
Corre dibaxo da terra,
qui nem qui bix'assustado, -
ieu nunca andei num anssim,
tan macio i'istabanado!

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

In casa di miô padrinho,
tem uma talevisão
qui inguá io nunca vi!...
Num é qui nem a da igreja
de lá di adonde eu narsci...
Ocê só tem que apretá
um tar di... di... contrô remó!...
Ocê fica sentadinho,
sem saí do seu lugá,
apretano us botãozinho
pra inscolhê os caná.
Tanto apretei os botão
que as geringonça quebrô, -
a talevisão i u contrô.

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Mar num é só isso, nãão!...
A bixa tem um filhote
pur nome di com puta dô...
Ui, qui nome mais feio!
Miô padrim m'insinô
qui é mió qui o talifone
(que acá num carece fio!...)
I num é qui ele vê cum quem fala!...
I fala cu's mund'todim, -
inté dondi as vista num arcança -,
abancado nos macio?!...

Mar num é só isso nãão!...
Dispois qui ele catucou
os botão c'uas letrinha,
de repente, pareceu
nas talevisão do bixo
uas muié porreta, -
mar bunita nunca vi! -
do jeito qui vier'u mundo...
as cara lavada e safada,
mostrano bunda i feofó,
fazeno coisa cus hômi...
Tinha hômi cum hômi, -
inté muié cum muié!...
I padrinho se rino di mim...
Fiquei mar'ssanhadinho
qui cano, nas sexta-fera,
vô c'us amigo da fêra
vê as minina da Guimba!...

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Mar o qui mar mi assustô, -
o maió dos milagre -,
io vô contá ié agora...

Cano cheguei por lá,
padrinho mar madrinha
fôro buscá ieu
na tar de rondoviária.
Madrinha, tan arrumadinha,
mar dava pra rente notá
qui o tempo passô i amassô
a cara da coitadinha,
ieu pensei:
Tadinha da minha santinha!...
já tá ficanu veinha...

Pois num é que adispois
qu'iela foi num tar dotô,
- io vi; ninguém mi contô! -
a madrinha'pareceu
qui nem qui u'a mocinha!...
Us nariz mu'irrebitado,
as cara mu'isticadinha
as bochecha nos lugá...
S'ieu num ficava vexado
ia preguntá praiela
si vortô a sê donzela?!...

Inté falei pu padrinho:
Ma'isso num é um dotô,
é um santo milagrêro!
Padrinho, pur Jésuz Cristinho,
me dê só um cadinho
da sua sorte tan grande!...
Perciso sabê o nome
desse hôme abençoado,
fazê uas oraçãozinha
prêsse santinho arretado.
Quem sabe se iô rezá,
quano ieu vortá pra lá,
pra minha Maria Morena,
incontro ela mar lisinha,
anssim, qui nem qui a madrinha?!...

I u padrinho i a madrinha
ficaro se rino di mim...
Riro tanto,... i riro tanto,...
dero tanta gargaiada,
qui fiquei incafifado...
Ieu lá, pensano in santo,...
i vai vê qui u tar incanto
ni é coisa dos sagrado!...
Podi ser arma vendida
praquel'qui num falo u nome...

Tratei de juntá minhas troxa,
i mi botá na istrada...
Ficá anssim a'arcance
dos chifre do coisa ruim?...
Ninguém vai tirá di mim
a aligria di espaiá
no lugá adonde moro
tod'essas coisa istranha,
qui passô pelos meu zóio!

Ói, tô dioido pra chegá!
Dioidinho prá contá!
Mar já sei qui can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Falano bem a verdade,
ni'eu tô'creditano...
ind'acho qui tô sonhano!...

ju rigoni (sem registro de data)

Foto Mell


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Quarta-feira

Ah, Gracinha...



Eu quiria que a Das Graça
mi dess' u'a oiadinha,
anssim, bem piquinim...
Ma' Das Graça, quanu passa,
ni põe u' zói ni mim!...

Maria das Graça...
Gracinha...
Ah, Das Graça...
si ocê era minha!...

Inheu fico aqui, cismano...
pitanu o meu fumim,
'speranu ela passá,
c'aqueles cabelo bonito,
um cherim di araçá...
as bundinh' alevantada,
que arrebit's pensamento,
boquim vermêi' carnuda,
i aquel's mãozinha di fada...

(Errê, fogo fi'daputa!...)

Mass... Das Graça é mes'anssim
jeitim inquiet' assustado,
qui nem qui um passarim...
princes'de fremosura,
que só si ói' di longe, -
si nóis chega munto junto
bate as asa pr'avoá.

Intonce, dô d'imaginá...
Fico aqui agachadim,
mastigano meu matinho,
remoen'as sperança...
Um dia ela vai'ceitá
tod'ess meu bem-querê...
Um dia ela vai me oiá!...

Ai, ai, Deus...
Óielalá!!...
Deix'eu me empertigá
que a Das Graça já evem...
Inhoje, si deus quisé,
a Das Graça vai pará, -
mi tirá dess'castigo -
mioiá, proseá cumigo...
Inté vai convidá
prum rasta-pé mais eu...
Ói só! Tá cheganu perto...
Evem!... Das Graça vem vino...
i vai mioiá!
Vai mioiá!
Vai mioiá!...
Vai mioiá!...
Vai mio...

Passôôô!...
... disgraç'!...

aff... Gracinha das Graça!...
Ah, Si ocê era só minha!...

ju rigoni (Anos 80)


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Quinta-feira

Mintirada...




Eles vêm muntio arrumado, -
tudo nas rôpa de missa -,
pormetendo água, trabaio,
escola pros nosso menino,
e caminião de cumida...

...mio, fubá, sá, farínia,
carne pra nóis salgá...
Só de ôvi eles falá,
nóis inté sente fastio...

Eles veve pormeteno
defendê nosso direito.
Falano muntio bonito, -
as palavra sem defeito.

Nóis é pobre, mar né burro,
e já tamo calejado:
bão cabrito num berra...
Cãodidato pra pefeito,
vereadô, deputado,
nóis cunhece mais que o cé
e o chão da nossa terra...

A veiz nóis se faiz de bôbo
pro mó duma nercessidade,
mar nóis né tão burro anssim...
Tá bestado dos pensamento
quem pensa que nóis é jumento!

Si mintira matava fome
nóis já tavo tudo morto
de tanto s´impanturrá
nos falatório bonito
dos cabra que vem acá...

Pormetê nóis tumém sabe,
nem percisa sê dotô...
Pra mó de insiná tar liçaum
nunca fartô professô!..

ju rigoni (1989)

Foto obtida Aqui.

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Terça-feira

Sastisfeito?...



Às vêis a fome é tanta
que nóis tem que se guardá, -
é um sono... uma lerdeza...
que nóis nem sabe expricá!

Inhessa pranta ispinhenta
que brota, sem pedi licença,
do seco do nosso chão,
inté parece uma bença,
do Jésuz, Nosso Sinhô...

Si nóis é o que nóis come,
entonce...
é pru causo da fome,
que nóis é mais do que barro...
pruque nóis é muntio ispinho,
i as vêis...
nóis tumém é frô...

ju rigoni (Anos 80)

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Domingo

Tesouros



Sem rigidez, sem concretos,
sem qualquer contaminação,
o erigir da palavra
matutada em pensamentos,
tostada ao sol inclemente,
harmoniosamente mutilada...

Nessa palavra simples
que o coração compreende
repousam lições
que a razão não aprende...
Verdades brutas, sem trato,
escritas em sulcos profundos
no seco da pele e do chão.

Só não é seca a esperança
que brota do sofrimento,
e a palavra do letrado...
embasbacado,
maravilhado,
diante do inusitado
de um paraíso ao avesso,
que tem na oração o abrigo,
e na música, na poesia...
a mais fiel companhia.

(Poetas e cantadores,
cuidado!
Apontam-nos como culpados,
cruéis exploradores
do chão não irrigado...)

Meu Deus, que melodia!...
Quanta harmonia!...
Quanta beleza pode haver
nesse cantar da palavra,
nesse falar diferente,
nesse correr devagar
que é a vida dessa gente
que não tem com quem contar...
Quanta incoerência!...

É mesmo divina
a providência do impossível
que brota
do impensável possível...

ju rigoni (1982)


Imagem obtida aqui.


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Quinta-feira

Dia de Mudança



Cabine e caçamba loooooooooooootadas...
Já vai indo o caminhão com a mudança...

treco e gente,
gente e treco,
treco e gente,
gente e treco,
treco e gente,
gente e treco...


fogão, geladeira,
mesa, cadeiras,
colchões desbotados,
camas desmontadas,
sofá, som, tv,
espreguiçadeira,
barraca de praia,
gato, papagaio,
cachorro, vassoura,
a vovó, o vovô...

E vamo que vamo
rodando,
mudando de lugar
a vida,...
via Avenida Brasil...

Meu Deus! Pára!
Pára aí!
O cachorro caiu!
Putaquepariu!
O cachorro





caiu!!!

Caim! Caim! Caim!...
Vai lá, e pega o bichinho!...

...passarinho engaiolado,
mudo e assustado,
roupas em trouxas,
sapatos velhos,
em caixas de papelão,
conseguidas no lixo
do velho mercado,
um atabaque, um violão,
mofo, bolor, poeira...
ácaro, traça, rato, cupim,
barata francesa,
(uh-lah-lah!),
mosca tupiniquim,
e tudo que estava guardado
nos guardados dos guardados...
Mudança aqui é assim!

treco e gente
gente e praga
praga e treco
treco e gente
gente e praga
praga e treco...


O carro aí atrás
tá vai-não-vai,
vem-não-vem...
O carro aí atrás
quer passar...
quer sair de trás desse trem...
quer sair de trás...
quer sair de trás desse trem...
quer sair de trás...
do que sobra da caçamba...

Êêê... já ouvi!
Para de buzinar!
Pode passar!
Passa! Passa!
Passa!... Paaaaaassa!...

E o trântiso
enrragafado...
Ufo! Que color!
Não! Que colar!
Não! Que calor!...
Ufa!...

Se eu lembrei de trazer
as plantinhas?
Era só o que faltava, mulé!...
Tanta coisa pra pensar...

Tec-tec-tec
tac-tac-tac
tec-tac-tec-tac


Tá ouvindo?...

Tec-tac-tec-tac
tec-tac-tec-tac...


Quebrou!
Alguma coisa quebrou!...
Agora, deixa pra lá!
Quebrou tá quebrado...
Não pára, não,
que isso a gente vai ver
quando chegar...

Tec-tac-tec-tac...
blu-fu-lu, blu-fu-lu...
tec-tac-tec-tac...
blu-fu-lu, blu-fu-lu...
fu-lu, fu-lu, fu-lu...


Ôôôôôô!!!
Segura aê
que o pneu furou!
Porra, bem aqui?!
Pára de reclamá.
'Bora, trocá
pra segui viagem...
Cadê o macaco,
cadê o estepe?
Não tem?...
Tá de sacanagem!...

A policia tá vino aí...
Tem algum?...
Quem... eu?
O que eu tinha
te dei...
paguei a mudança...
Acabô! Tô liso!

Iiih! Sujou!!!

Carteira vencida,
pneus carecas,
carro apreendido, -
tudo recolhido,
até os cacarecos!!!

Nós nem somo bandido,
somo gente de bem!
Só queremo é fazê
uma vez na vida
o que de tão difíce
parece impossíve...
Só queremo é mudá!
Só queremo é chegá
num lugá que é nosso,
sem tanta luta,
sem tanta marca,
sem tanta falta...
Cualé, sêo guarda?...

(Que dia!...)


ju rigoni (sem registro de data)


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Quarta-feira

Lição




... tá a muié recramando
do lugá onde nóis mora...
cumo se nóis pudesse,
argum dia, i simbora!

- Zé, isso num é vida,
nem pra nóis
nem prus minino.
Lá, na cidade grande,
nóis ia tê ôtro distino.

Fico muntio aperreado
cum toda essa falação,
às vêis inté penso inhí,
mas acho que passô da hora...

Só vejo rente vortano
cum as mão abanano,
e beijano o chão
que um dia abandonarum.

Só vejo rente falano
das dificurdade que é
tentá vivê nas cidade.

Acá tudé muntio difírce,
mar é um chão cunhecido,
as vêis nóis num come bem,
mar tumém num passa fome,
que famía grande nóis tem.

Quano a coisa aperta
nóis come na casa dum irmão,
onde sempre há de tê o fubá
prum angú bem ralinho,
ô um cardinho carqué.

Si nóis vamo pra cidade
i as coisa fica preta,
quem nóis vai procurá?...
Hein? Hein?...
Quem?
Prá lá, nóis num tem ninguém!

Sempre falo pra muié
pra mó de sussegá o facho,
que acá nóis tem onde morá,
nóis cunhece os caminho
de í e de vortá,
i nem percisa pagá
pra interrá nossos morto...

Acá só percisa mermo
da mãozinha do santinho, -
u´a chuvinha por mês
já ia acabá c´us medo
de toda essa rente boa,
incrusive da muié
que num larga do meu pé.

...

Ói, meu santinho amado,
nóis veve de rezá procê,
mar reza só lava a alma,
o chão tem que sê moiado!
O beato insinô,
i nóis num aprendeu errado:
negá água é pecado!

Ói, meu santinho adorado,
si chuva é coisa de rico,
nóis vai morrê tudo seco,
que acá num tem rico naum.
Acá só tem quem num tem...
Só num farta é oraçaum...

ju rigoni (1992)

Encontrei essa foto maravilhosa no google. Caso você
conheça o autor, por favor, me diga, para que eu
possa inserir o devido crédito. Obrigada!

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Segunda-feira

Galopeio



No fio da pressa
me ponho em bombachas,
acinto a guaiaca,
dou lustro às botas
e espelho as esporas...

Que a china não espera...

Seguro na crina
manejo o chicote,
e o crioulo bravio
me leva a galope, -
desejos e brios
apontam o caminho...

Assim, disparado,
em busca do céu,
a mão já no bolso
procura no anel
melhor garantia...
O tombo só é freio
na falta de arreios...

E a china não espera...

Atalha a senda
o bom pensamento:
o bolso mui cheio,
o rancho vazio,
a chica mui linda, -
e à jóia tão rara
não le deram laço...
ainda!

Assim, encilhado,
montando e montado,
eu lembro a surpresa
com que a passarada
me encontra sozinho
em toda alvorada...

Se põe com o sol
a longa vereda...
E as negras auroras
do olhar de segredo,
agora tão perto,
na alma têm ninho.

Em frente à casita
a chica bonita,
em panos e rendas,
me abre o sorriso
que varre minuanos.

Nos tragos de canha,
o sangue me ferve...
O vai-e-vem do fole,
o gemer da gaita,
e a saia de chita
me rodam o juízo.

No seio da noite
de lua escondida
em meio às estrelas,
sem qualquer rodeio
me ponho em fuga, -
a china à garupa...

Que a vida não espera...


ju rigoni (sem registro de data)

(Para Beryllo, meu gaúcho favorito.)


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Domingo

Xique?
("Brasileiro é tão bonzinho!...")



De devedor a credor!?
Lá vai o país brejeiro
emprestar dinheiro!

Mas não a qualquer um...
Não, senhor!
Nada de empréstimos
para o pé rapado,
o pequeno agricultor,
pobre coitado,
que em pertinaz romaria
vive para enfrentar
a puta burocracia.

Nem há recurso milionário
para salvar a floresta, -
onde cada funcionário
perde-se nos milhões...
de hectares a fiscalizar.

Chique.

Mas não confunda alhos com bugalhos!
Esse é um empréstimo especial,
é um dinheiro que já está lá...
só o alvo muda de lugar!
Papa fina para ajudar
os pobres da América Latina.
Um passo que só vai-nos beneficiar!!!

???...
Um ato que nos faz pensar...

Um jeito elegante de estreitar o laço
embora a própria geladeira
esteja repleta... de espaço.

Você ri?
Angicos, Xique-Xique,
os sertões dos confins,
e os bolsões de pobreza
das capitais tupiniquins
agora emprestam dinheiro
ao FMI!...

Não. Não cometa o deslize
de mencionar a crise,
que este é um país farto:
não há crise. Há crises.
Mas, ao contrário
do que pensa a periferia
é muito robusta a nossa economia!!

Então, vamos lá!
Vamos ser magnânimos.
Agir à brasileira:
Onde comem nove, comem dez!!!
Mas, onde estão os nove que comem?...
Geralmente, à direita do todo-poderoso.

Quem pode, tem pão à mesa,
quem não pode... engole a tristeza
e, de sobremesa, a eterna esperança!
Meu Deus, que país!...

Miséria,
fome, violência,
professores mal pagos,
mal preparados,
roubalheira, corrupção,
impunidade...
A crise é de Educação, -
é de identidade.
Em país de faz-de-conta
quem paga a conta é o povo.

Milhões de analfabetos,
escola que não ensina...
Neste mulato izoneiro
o sonho de todo menino
é cantar ou jogar bola.
Houve um tempo em que menina
sonhava ser professora,
agora quer ser modelo ou atriz.
Meu Deus, que país!...

Mas é chique!
É tudo muito chique
e tão engraçado!...
(Dentre tantos deslumbrados,
todos muito bem calçados,
nem houve sapato que ganhasse asas...)

É o excesso de vaidade
que revela a real vocação
para celebridade,-
mal que não tem resistido
à proximidade do poder
e que, já se viu!,
aponta a diferença
entre transformar e entrar
para a História.

ju rigoni


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